BRASLIA - O presidente da [Vicentinho e Hernando Uchoa Lima] Central nica dos Trabalhadores (CUT), Vicente Paulo da Silva, o Vicentinho, no confia no presidente Fernando Henrique Cardoso. "Se me perguntarem se confio no presidente, eu digo que no. Porque a postura do governo tem sido a de quebrar acordos", disse Vicentinho, ontem, durante palestra na sede da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), em Braslia, quando tambm reclamou das "negociatas", realizadas a portas fechadas. Vicentinho se referia aos pontos da reforma da Previdncia, que haviam sido acertados com a CUT, mas acabaram no sendo includos no parecer do relator, Euler Ribeiro (PMDB-AM). "Se este fato  episdico ou no, eu no sei. Eu s toro para que o presidente seja sincero, prestigie esse momento de negociao e leve a discusso para a prtica. A sim, eu poderei dizer que confio no presidente", afirmou.

Dizendo-se muito decepcionado com a atuao de Euler Ribeiro - que definiu como "um deputado que foi mordido pela mosca azul e est fazendo muita besteira" -, Vicentinho passou cerca de uma hora discutindo a reforma da Previdncia com os conselheiros da OAB.

"Vocs, advogados, sabem que toda negociao tem uma prtica. Mas esta foi horrvel. Incluiu uma negociao sria com as portas abertas e, mais tarde, as negociatas. Se o relator tivesse colocado no relatrio o que foi acertado naqueles dias, tinha ficado tudo certo", afirmou.

Mal-estar - Mesmo aceitando conversar com o governo, Vicentinho fez questo de mostrar, no Congresso, sua postura oposicionista. Quando entrou no gabinete do lder do PFL, Inocncio Oliveira (PE), o presidente da CUT provocou: "Inocncio, o homem que de inocente s tem o nome". Diante do mal-estar, o deputado Jos Genono (PT-SP), que o acompanhava, apelou para a diplomacia: "Mas isso  no bom sentido, lgico."

Inabalvel, Inocncio riu e respondeu: "Mesmo assim, isso  muito bom para mim." Minutos depois, os fotgrafos pediram que Vicentinho apertasse a mo de Inocncio. O presidente da CUT voltou  carga: "Este  o encontro de dois nordestinos, um rico e outro pobre." Inocncio reagiu: "No, no, so dois pobres." Apesar das estocadas, Vicentinho ainda conseguiu arrancar elogios de Inocncio: "Esse  um cabra bom, que lutou muito e, para chegar onde chegou, teve que passar por muita dificuldade", reconheceu o lder do PFL.

Vicentinho tambm procurou o presidente da Cmara dos Deputados, Lus Eduardo Magalhes (PFL-BA), para expressar sua preocupao com o relatrio de Euler. "Este  um tema extremamente preocupante. Vamos ler o relatrio todinho e j marcamos uma reunio com Lus Eduardo para amanh (hoje), para dizer o que est errado", afirmou o presidente da CUT.

Vicentinho mandou ainda um recado ao ministro da Administrao e Reforma do Estado, Lus Carlos Bresser Pereira, que j avisou que no quer negociar a reforma administrativa com a CUT, porque as posies da central so totalmente opostas s do governo. "Quanto mais ele falar que no quer discutir com a gente, mais a gente vai falar que quer negociar esta reforma", afirmou o sindicalista.

Para Vicentinho, participar dessas discusses era um sonho antigo, do qual ele no vai abrir mo. "H muitos anos espervamos a possibilidade de dar palpite nos assuntos que so importantes para toda a sociedade brasileira. Como em Braslia tudo  importante, queremos dar palpite em tudo", concluiu.
